15.07.2010  |  intervalo  |  9 Comentários

Viajei nessa aula – Berlim



Terça-feira (8 de junho)

A primeira cidade da viagem me causava grande ansiedade por dois motivos em especial: Ver meu irmão Gustavo, o qual mora em Berlim e não via fazia alguns anos, e estar, pela primeira vez na minha vida, em um lugar onde eu não tinha a mínima ideia como me comunicar (inglês ajuda, mas não te leva muito longe). Pois bem, pego as malas na sala de bagagem e andando com o fluxo de japinhas histéricos descubro a saída. Olho pra esquerda: nada. Olho pra direita: nada. Putz, o Gustavo é foda! E aí noto que tem um cara cabeludão me olhando e rindo. Poisé, nem reconheci o próprio irmão. Mas sem problemas! Entre abraços, declarações de saudades e o básico “como estão o pai e a mãe?” ele pergunta se quero uma cerveja. Agora a viagem começou! Pra ir me familiarizando com a cidade: Cerveja Berliner e Currywurst!

Chegando ao apartamento encontramos a esposa do meu irmão, Sissa, que nos esperava com mais cerveja. Depois de alguns goles e distribuir as encomendas do Brasil (cachaça, farinha, doce de leite…), fomos alugar minha bicicleta. Paguei 55 euros por uma semana. Berlim é uma cidade plana, não tem elevações praticamente, então bicicleta é a melhor opção, fora que as ciclovias são excelentes e o respeito dos pedestres e das pessoas com carros e motos é algo realmente impressionante. Ninguém buzina, todo mundo cede a preferência pra você.
Escolhida a bicicleta e batizada de Bernadete, seguimos rumo a um parque onde fomos jogar futebol. Coloquei o manto Avaiano e representei bem com alguns gols e assistências. Talvez tenha sido xingado por não ter passado a bola, mas minha habilidade na língua germânica não deixou entender coisa alguma. Do futebol fomos pra onde? Mas é claro, bar! Alemão é engraçado, não existe sede de água. É cerveja em qualquer ocasião. E o copo é quase um vaso, então três copos depois, eu já estava em médias condições de guiar a Bernadete por Berlim, mas nada preocupante. Na hora de ir embora, tinha acabado de escurecer. Fui ver o horário: 23h. É, bem vindo ao verão europeu! Noite? Só a partir das 22h30 em diante. Mas antes de ir, alguém vem com uns copos e…Ok a última cerveja e casa. Tá, mais uma? Saidera? Tô de férias mesmo. Quando chegamos em casa, descobri que meu quarto era uma espécie de sótão e que eu ia ter que usar uma escada. Gustavo: “Cara, teve gente que já caiu, mas acho que tás tranqüilo”. Respondi: “Tô de férias”.

Vamos ver se alguém descobre o que essa propaganda está vendendo

É propaganda de...Adivinha!

Quarta-feira (9 de junho)

Acordei e fui para a “Ilha dos Museus”, um lugar lindo com diversas galerias e como diz o próprio nome, museus. Resolvi deixar para entrar outro dia, e como a ilha é grande, fiquei apenas andando por ela, tirando fotos e admirando aquela arquitetura imponente. Colunas gigantes, estátuas, e verde, muito verde. Pessoas deitadas na grama e lendo livro enquanto outras se refrescavam no chafariz. É engraçado para uma pessoa que está acostumada passar o verão e qualquer dia de sol na praia, ver as pessoas curtindo o verão em parques, praças e jardins.
Depois de um bom tempo andando e muitas fotos tiradas, fui para casa, pois tinha show de uma amiga do meu irmão em algum bar. Banda de rock, com pegada de blues. Lugar pequeno, pessoal sentado no chão e claro, com o copo/vaso de cerveja na mão. No meio de uma música, com todo mundo cantando junto e animados pensei: “essa viagem vai voar.” Mais cervejas e algum tempo depois, casa.

Catedral de Berlim
Altes Museum

Discurso para a plebe

Quinta-feira (10 de junho)

De manhã eu e meu irmão fomos dar uma volta num parque perto de casa,  o Humboldthain. Muito verde, com jardins lindos, árvores imensas e pessoas aproveitando um dia de sol. No meio do parque tem um Bunker da 2ª Guerra Mundial, que nunca conseguiram destruir. Fomos até a entrada, mas tinha que comprar o ingresso com antecedência e acabamos deixando para outro dia. Passeamos mais um pouco pelo parque (é muito grande!) até que a Sissa nos ligou lembrando que a maioria dos museus de Berlim tem entrada gratuita toda quinta-feira durante o ano todo.
Olha que maravilha: o primeiro museu que escolhemos ir não estava na lista dos gratuitos. Rá! Pegadinha do Mallandro alemão! Mas tudo bem, foram 12 euros bem pagos. O Hamburger Bahnhof (Museu de arte contemporânea) é muito legal e tinha uma exposição muito diferente e interessante. Labirintos, filmes de um palhaço berrando que nem um louco, uma pessoa raspando cáctus com um barbeador, uma pessoa gritando até perder a voz, as Marylin’s do Warhol e muito mais.

Separo duas obras que mais me chamaram a atenção:

1 – Um corredor longo em que as paredes vão te espremendo cada vez mais durante o percurso. No final, dois aparelhos de TV, um em cima do outro. No de cima, é transmitida a imagem de costas de quem está na frente das TV’s. No de baixo a mesma imagem, mas sem a pessoa.

2 – Uma releitura de uma escultura de Michael Jackson e seu macaquinho Bubbles intitulada “Michael Jackson Fucked Up”.

Mais algumas obras:

Saindo do Hamburger Bahnhof segui sozinho para ilha dos museus e fiquei quase o dia inteiro passeando pelos museus enfim gratuitos. Dentre eles destaco o Pergamon e o Altes.

Pergamon – É enorme. Para quem gosta de escultura e arquitetura é perfeito. Obras gregas, romanas, da babilônia, que deixam qualquer um tonto pela grandiosidade e beleza. É a história parada na sua frente.

Altes – Obras gregas e romanas do período clássico. Peças como capacetes de soldados, moedas e vasos. As estátuas são impressionantes. No final do museu tem uma sala que é rodeada por estátuas de deuses. Você fica no meio do salão, sendo “observado” por figuras como Zeus e Afrodite.

Zeus
Zeus

Afrodite
Afrodite

Um pouco cansado de museus resolvi ir na Alexanderplatz, praça central de Berlim onde tem a Fonte da Amizade Entre os Povos, a torre de TV que se não me engano é a mais alta da União Européia (e minha guia master. Quando ficava perdido era só olhar pra cima) e onde tem diversos bares e lojas. Encostei a Bernadete num canto e fui atrás de uma cerveja e um Bratwurst (Pão com salsicha). Pedir a cerveja foi fácil, Beer/Bier, agora o maldito Bratwurst. Eu não sabia o nome e não queria dar uma de turistão burro e falar hot-dog, sendo que não é. É só pão e uma salsicha 2x o tamanho do pão. O dono da lanchonete irritado não entendia o que eu queria e perguntava as coisas em alemão. Eu respondia em inglês. Ele devolvia em alemão já com um xingamento (não entendo, mas tenho certeza que ele falou algo do tipo “seu turista burro”. Quando pensei em mandar ele pra outro lugar (em português claro) avistei uma barraquinha que só vendia o tal do Bratwurst. Peguei a cerveja com o mal-humorado e ainda mandei um “Danke” com um sotaque perfeito. Peguei o x-salsicha-alemão na barraquinha e finalmente parei pra saborear meu almoço. Diria que a cerveja foi o melhor da refeição.
Chegando a Torre de TV, resolvi subir já com aquele pensamento “tá, deve ser bem caro, não deve ser nada demais, mas eu tenho que ir”. Dito e feito. E ainda encontrei outro alemão folgado. Lá em cima, tem 2 andares, o 1° tem um barzinho e todo mundo fica olhando a cidade e o 2°, é um restaurante que fica girando. Claro que queria ir no restaurante, já tinha pago uma notinha (acho que uns 12 euros) pra subir. Pelo menos queria rodopiar no negócio. Quando pedi pra subir o host do restaurante perguntou o que eu queria. Respondi que queria uma mesa e ele me deu um cardápio, não deixando eu subir. Quando falei que por enquanto só ia tomar uma cerveja e que depois decidia o que ia comer, ele tirou o cardápio da minha mão e falou “Cerveja é no bar” e virou de costas. No instinto falei um pouco alto “que bicho”, quando ia continuar ele já me olhou com um veneno nos olhos que achei melhor descer de uma vez daquela torre e ir pra casa.

Torre de TV
Torre de TV

Fonte da Amizade Entre os Povos
Fonte da Amizade Entre os Povos

Berlin's heart
Berlin’s heart

A noite de quinta foi bem tranqüila, cervejinha e jogando conversa fora. Na madrugada fui para uma praça chamada Weinbergplatz que fica pertinho de onde eu estava . Lá fiquei com o meu irmão até umas 5h e pouco. É incrível como Berlim é uma cidade agradável e tranqüila. Pessoas sentadas esperando o sol nascer, outras brincando com avião de controle remoto e outras apenas tomando cerveja e conversando. Todos num clima de paz, sem medo de ser roubado ou coisa parecida.

Sexta-feira (11 de junho)

Pela manhã voltamos ao parque Humboldthain e fomos ao bunker (acho que foi 8 euros). Foi outra aula de história. Do guia pro meu irmão (alemão), do meu irmão pra mim (português). Enquanto na rua a temperatura chegava a uns 25°C, dentro do bunker era 9°C. Na época que o abrigo ficou pronto, cabiam aproximadamente 25 mil pessoas, sendo que tinha cinema, teatro e claro, muita munição e artilharia. O tamanho dos pedaços de concreto e ferro é algo indescritível, parece algo impossível de destruir. Fotos da inauguração do local e dos soldados que cuidavam da segurança decoram as paredes. Durante a guerra, os generais acabaram morrendo ou deixando aquele bunker e quem ficou no comando foram soldados de 15 e 16 anos. As fotos de garotos com armas, liderando um segmento do exército nazista, são bem desconcertantes. Quem espera ver militares sérios e com pose de autoridade, vai se decepcionar porque só vai ver uma turma de moleques se abraçando, rindo e posando pra foto.

Entrada do bunker
Entrada do bunker

Humboldthain Park
Humboldthain Park

Coração de pólen
Coração de pólen – Humboldthain Park

Saindo do Bunker, segui com a Bernadete até o Museu dos Judeus para ver uma exposição sobre a relação entre as HQs e os judeus: “Heroes, Freaks, and Super-Rabbis – The Jewish Dimension of Comic Art”. Me perdi pelo menos umas três vezes. Até que vi que eu estava muito longe, mas nem sabia onde o longe era, então pedi água e comprei um mapinha básico pra turistão e consegui encontrar o museu. Foi sensacional, com muito material, vídeos, gibis para ler, livros e muitas informações sobre desenhistas, roteiristas, cartunistas e outros profissionais da área. O percurso segue a linha do tempo dos quadrinhos, passando pelo Yellow Kid, Shmoos, Super-heróis, Mad, histórias de terror e por aí vai.

Heroes, Freaks, and Super-Rabbis - The Jewish Dimension of Comic Art
Heroes, Freaks, and Super-Rabbis – The Jewish Dimension of Comic Art

Super-homem & Hitler
Super-Homem & Hitler

Heroes, Freaks, and Super-Rabbis - The Jewish Dimension of Comic Art
Heroes, Freaks, and Super-Rabbis – The Jewish Dimension of Comic Art

Muitos quadrinhos depois, fui encontrar meu irmão no ponto mais turístico de Berlim, o Portão de Brandenburgo. É um monumento muito bonito e como toda arquitetura em Berlim, grandiosa. A avenida que chega ao portão e é uma das principais da cidade, a Unter den Linden, é lotada de lojinhas, turistas e a galerinha fazendo qualquer coisa pra tirar uns trocados. Pessoas fantasiadas de soldados e generais, Batman, o assassino do pânico e até os nossos amigos bolivianos/peruanos da Praça XV estavam presentes tocando as flautinhas de madeira e pedindo pra comprar o cd. Praticamente floripa!

Portão de Brandenburgo

Portão de Brandenburgo

O calor estava fortíssimo e a sede também. Ein Bier bitte! Fiquei tomando uma cervejinha até meu irmão chegar. Mais uma cerveja e fomos para Kreuzberg, bairro com diversos restaurantes e bares, onde combinamos com a Sissa de fazermos um piquenique. Passamos em um feirão turco para comprar pães, patês e outras coisitas. O clima era bem familiar, pessoal berrando, querendo que você prove as coisas, dizendo que não tem nada igual. O engraçado é que no meio das barracas de alimentos, têm outras de bugigangas. É meio que um feirão/camelô. Então você vai passando e tem temperos, tomates, tapetes, relógios, peixe, mochila, pão, cortinas…
Compras feitas, fomos até a beira de um canal e aproveitamos um belo dia de sol com fartura de comida e bebida. Ideias para os últimos dias em Berlim, Copa do Mundo e planos para um mega almoço no sábado dominaram a conversa.

Kreuzberg

Kreuzberg

Kreuzberg

Kreuzberg

De lá continuamos passeando, entrando em algumas galerias de arte até achar a que tinha uma exposição de uma conhecida do Gus e da Sissa. É incrível como em uma única rua tem mais galerias de arte do que Floripa inteira.

Um dia a gente chega lá, seguindo com a viagem…

Paramos em um bar para assistir o jogo França x Uruguai. Obviamente torcemos para a Celeste e mais obviamente ainda o bar só tinha francês. Quando o Uruguai quase marca o primeiro gol só três pessoas no bar inteiro soltam o glorioso “UUUHHHHH”. Olhares poucos amigáveis em nossa direção, uma leitura labial magnânima capta um “merd”, sem conseguir identificar o que veio antes. Paciência, mais uma cerveja, sempre diferente da outra porque afinal, estou de férias.
Depois do sofrimento de assistir aquele jogo horroroso andamos até uma região mais agitada, trancamos nossas bicicletas num poste qualquer e fui avisado que o tour ia começar. Tour? Sim, 2 cervejas por balada e sem parar. No total acho que foram umas 5 baladas sendo que a regra da cerveja foi alterada para um número maior e foi permitido o consumo de tequila, claro. Eletrônico, rock, hiphop, rolou de tudo. Todas baladas de graça, só gastando com a bebida. Em alguma das baladas um cara saiu doidão do banheiro e jogou fora o cigarro. Detalhe: na cabeleira do meu irmão. Ficou meio que nas costas, então ele nem notou. Tirei rápido e falei “vai ficar careca! Jogaram um cigarro no teu cabelo”. E ele: “tirou?” Eu: “tirei”. Ele abriu um sorriso, ergueu as bebidas e disse num bom manezês “então não dá nada né ô!”.
Entre um bar e outro tinha uma daquelas cabines pra tirar foto. Dando uma espremida coube os três. Colocamos as moedas e nada. Soco na máquina. Nada. “Coloca uma moedinha pra ver se cai as outras”. Dito e feito. Colocamos as moedas de novo e o resultado foi esse:

Foi algo do tipo:
1ª foto: Não foi de novo, será que…FLASH!
2ª foto: Ricardo e Sissa: Ahhaha! Gustavo: Peraí, não to aparecendo!
3ª foto: Ricardo: tá bem maninho, vem aqui que eu te amo.
4ª foto: no words.

Em algum momento da noite/dia conseguimos chegar em casa.

Sábado (12 de junho)

Melhor dia de Berlim.

Antes de viajar, falei para o meu irmão que tinha aprendido a fazer uma receita de Camarão na cachaça que nosso avô fazia. Prometi que faria pro pessoal quando chegasse. O problema é que eu só tinha feito no máximo para quatro pessoas, sendo que duas delas eram meus pais, então não conta a opinião. E aí em Berlim, recebo a bela notícia que o almoço será para DOZE pessoas. Vai dar, vai dar, disse o Gustavo. Beleza, se eu errar na receita, o arroz e farofa da Sissa amenizam a situação pensei mentindo pra mim mesmo.
Correria na cozinha e comecei a organizar as coisas. Sal, cachaça (levei do Brasil 3 garrafas e 2 garrafinhas de shot), orégano, ingredientes especiais e camarão, muito camarão! Quando vi a maior frigideira que tinha pensei “não vai dar, mas vamos tentar”. Péssima ideia. E nada de o camarão fritar e era muito camarão e o pessoal já estava com fome. Meu irmão entra na cozinha: “Tudo tranqüilo?” e eu convicto: “Claro! Fica sossegado que já vai ficar pronto”. Então, enviado pelo vô creio eu, um amigo da Sissa e do Gus que eu já tinha conhecido antes, José, entra na cozinha e pergunta se está tudo bem. Digo que sim. Ele espera uns dez segundos e pergunta se eu tenho certeza. Comecei a rir e ele a me ajudar. Correria pra lá, cachaça pra cá e pronto, pode avisar o pessoal que vamos servir. Aos poucos o pessoal vai repetindo o prato e falando que ficou muito bom. Alívio e abraços no José.
Foi uma experiência inesquecível. Na mesa tinha gente da França, Alemanha, Rússia, Hungria e mais pro final chegou um pessoal da Itália. Gente de todo o mundo, rindo, bebendo e se entendendo. No alemão, no inglês, no português ou simplesmente numa erguida de copo. Em certo momento pensei “a viagem podia acabar hoje que eu ia estar feliz”. Conversei com uma russa sobre minha viagem, com uma alemã sobre música, com um francês sobre filme, enfim, foi tão rico esse dia que as palavras não dão conta do recado.
Diversas cachaças depois, tirei meu irmão pra dançar na sala e praticamente abrimos a pista de dança. Todo mundo começou a colocar a música que queria ouvir e dançar. Me diverti demais quando a francesa/alemã Iris me apresentou ao cantor Richard Cheese. Beat it de Michael Jackson e Creep do Radiohead (absurda essa versão!) embalaram a noite que ia prometendo ser memorável. Durante uma conversa, a Sissa aparece com uma tigela de Mumu (levei algumas do Brasil) e oferece pro pessoal. Pelo que entendi, não é muito comum lá em Berlim pelo menos. Michel, um amigo francês, é o primeiro a provar. Ele dá uma colherada e solta aquele “hmmmmmmm!!!” e fala “Múmu!”. Todo mundo cai na gargalhada e aprova o tal do múmu (o acento é pra demonstrar como ele pronunciou).
Após terminar com todas as bebidas da casa e uma tigela de múmu, todo mundo sai junto para a balada. No metrô a cantoria continua, e a minha bússola já tava perdida faz tempo. Baladas, cervejas, tequila – claro – e a noite foi uma criança. Em algum momento da madruga/manhã resolvemos ir embora. Enquanto estávamos caminhando em direção ao metrô, um cara veio em direção a Sissa e ficou andando do lado dela. Ela mandou ele sair fora e ele continuou. Quando noto, meu irmão está correndo em direção aos dois. Na hora veio a palavrinha na cabeça “Fud..”. Saí correndo segurei ele e falei pra ir embora. Entre xingamentos em alemão e português para o cara, meu irmão foi se acalmando. O babaca saiu fora e não voltou. A santa paz voltou a reinar depois de irmos a uma padaria que NUNCA fecha (não lembro o nome, mas prometo descobrir e passar). Comemos alguns doces turcos e fomos para casa.

Demorei mais do que o normal para conseguir a escada e ir para o meu “quarto”. Mas o importante é que cheguei são e salvo.

Domingo (13 de junho)

Após um dia forte, resolvemos pegar leve. Passeios e barzinhos para relaxar. No início do dia fomos ao Mercado das Pulgas, num parque perto de casa. Tudo o que você pode imaginar tinha para vender. Camiseta, casaco, botas, broche, teclado, tênis, forno, vinil, cadeira, cinto, mesa, entre outras coisas. Quando os vendedores começam a ir embora, eles chegam a dar algumas coisas para as pessoas. A Sissa acabou ganhando um tênis e um quadro.
Pedala pra cá, pedala pra lá e chegamos ao Bar 25, ou como os berlinenses chamam: “der bar” (o bar). É um lugar incrível, visita obrigatória pra quem for a Berlim. É um local onde funcionam alguns bares/baladas e que as pessoas ficam transitando entre eles. Fica a beira de um rio e entre os bares tem um deck imenso com cadeiras, balanços, cabines de foto e tendas que vendem bebidas. Muita gente fica um tempo ali antes de ir para os bares/baladas, brincando no balanço, sentados conversando e dormindo. Dormindo? Sim. O local funciona durante dias. O pessoal entra, fica indo nas baladas, dorme um pouco e continua. Encontramos uma garota que estava  lá desde sexta-feira.
Como era dia de jogo da Alemanha e no 25 não tinha telão, fomos para outro lugar, o Yaam! Um local que respira a cultura reggae. Bares, quadras de basquete, lanchonetes e barraquinhas vendendo lembrancinhas. Quando entrei falei pro meu irmão, “mas eu queria ir num bar com uma galera, assistir com os torcedores mesmo”. Quando entramos no bar, uma massa de alemães ensandecidos berrando “Deutschland! Deutschland! Deutschland!”. Torcida animadíssima e os três brasileiros dando sorte: Alemanha 4 x 0 Austrália. Mais algumas cervejas, voltamos para o 25 (você ganha um carimbo na mão e entra e sai na hora que quiser) para mais algumas rodadas e fomos para casa.

Segunda-feira (14 de junho)

Para aproveitar o calor, fomos fazer um piquenique num lago que fica num município perto de Berlim chamado Liepnitzsee. Pedalamos até o metrô, viagenzinha de 30min e mais 20min de pedalada até chegar ao lago. Simplesmente lindo. Indo em direção ao lago atravessamos uma floresta com a natureza para todos os lados e notamos que a presença do homem é praticamente invisível, fora as lixeiras pequenas placas indicando o caminho.
Existe a possibilidade de passeio de barco, mas preferimos ficar só sentados, então andamos até um ponto mais isolado e montamos o piquenique. Dia perfeito = Vinho bom, comida boa e companhia boa. Após algumas taças de vinho, hora do mergulho. Como sou meio medroso para águas desconhecidas perguntei “Não tem jacaré nem crocodilo por aqui né?” Rindo, Gus respondeu “acho que não, vê aí”. Ficamos boas horas, apenas curtindo o dia, aproveitando um momento que parecia que nós éramos as únicas pessoas no mundo. Sem barulho, sem nenhum sinal de vida perto da gente.
Despreocupados com o horário, acabamos perdendo o trem, então tivemos que matar um tempo até o outro chegar. Mas tinha um bar na estação. : )
Voltando a cidade fomos assistir ao jogo da Itália com Luca, um amigo italiano. Joguinho feio, mas que valeu pelas risadas que os ataques com muita gesticulação do nosso amigo cada vez que a Itália perdia um gol. Fim de jogo, fim do dia.

Liepnitzsee

Liepnitzsee

Liepnitzsee

Liepnitzsee

Liepnitzsee

Eu e Gus

Sissa e eu esperando o trem

Sissa e eu esperando o trem

Terça-feira (15 de junho)

No último dia na cidade dei umas voltas básicas. Compras de lembrancinhas, última visita a ilha dos museus e claro, o Muro de Berlim. Um clima um pouco pesado cerca o ponto principal. Fotos de pessoas que morreram tentando atravessar, monumentos de homenagem e pedaços do próprio muro. É uma sensação bem estranha tentar entender como uma cidade era dividida por um muro e como isso mudou tanto cada lado. Muita informação no local, inclusive com áudio e pequenos televisores no meio da praça. De novo, para mim foi algo bem surpreendente e estranho ver de perto aquilo que eu só aprendi na escola, algo que de certa forma era um tanto quanto fantasioso.

Muro de Berlim

Muro de Berlim

Depois da visita ao Muro, foi chegada hora de um dos piores momentos da viagem. O adeus a Bernadete. Companheira, guerreira, imortal, não me deixou na mão uma única vez. Passado o momento de despedida, voltei para casa e combinei com o pessoal de assistir o jogo do Brasil em algum bar em Kreuzberg. Indo para o metrô um cara ouve eu e a Sissa conversando e vem: “Brasileiros?”. E aí tem toda aquela apresentação táfazendooqueédeondequelegalbláláblá. Enfim, ele pergunta onde vamos ver o jogo. Quando digo Kreuzberg, ele responde “ah, mas lá nem vai ter muito brasileiro, vamos no bar que eu vou, vai ter roda de capoeira e bandas de pagode”. Nada contra capoeira, nada contra pagode. Agora, ir pra Europa pra ficar só com brasileiro, ir pra bar de brasileiro e fazer programa de brasileiro, tem que ser muito infeliz. Faz isso no Brasil amigo. Claro que não disse isso pra ele, só agradeci o convite, mas recusei.
Antes do jogo, parada para comer pizza! Outro ponto obrigatório em Berlin: Trattoria Venezia. A maior pizza que eu já vi. É absurda de tão grande. Aqui tem um vídeo para vocês terem uma ideia. Pizza boa, cerveja melhor ainda e vamos pro jogo! O bar escolhido tinha mais torcida contra do que a favor, mas sem problema. Assim é melhor. No primeiro gol do Brasil eu e o Gus pulamos e berramos enquanto a galera só batia palma. No segundo já tava girando minha camisa do Avaí e pedindo “Roberto neles!”. No gol da Coréia do Norte a galera todo virou pra gente pra comemorar. Luca, o italiano, torcedor do Roma, só falava pra mim “Juan, craque”. Fim de jogo, torcida do contra vira pra gente e bate palma. Luca fica só fitando minha camisa do Avaí e pergunta sobre o time. Vi que ele era mais um apaixonado por futebol e dei o manto sagrado pra ele com a condição de que agora em diante no Brasil ele só tinha um time. Ele aceitou, beijou o escudo e disse “ávai” (pronúncia). Tentei corrigir, mas ele insistiu e então deixei por isso mesmo.
Como eu iria sair bem cedo no dia seguinte e o Gus e Sissa também (foram pra Rússia), fomos para outro bar, fizemos algumas saideras e seguimos para casa.

Arrumada a mala subi a escadinha pela última vez e fui dormir.

Saudades da escadinha.

Quarta-feira (16 de junho)

Acordamos cedo, fizemos as últimas arrumações, nos despedimos e cada um seguiu seu rumo. O meu era Amsterdã, Holanda. Chegando na estação central de trem de Berlim pedi informação e fui rapidamente e muito bem atendido. Ficou fácil para encontrar o ponto de onde iria sair meu trem.

Saí de Berlim às 8h39. Em uma viagem de 6h30 deu para pensar muito sobre o que tinha vivenciado, as pessoas e lugares que tinha conhecido. As paisagens eram o plano de fundo perfeito que eu precisava para relaxar e absorver tudo o que a Alemanha tinha me proporcionado.
O trem era confortável, com restaurante em outro vagão e principalmente, sem criança berrando. O tempo voou e quando notei já estava chegando. Cidade nova, lugares novos e gente nova. Que venha Amsterdã!

Trem Berlim - Amsterdã

Trem Berlim - Amsterdã

Trilhas sonoras de Berlim:

Electrelane: In Berlin, Gabriel e Blue Straggler.
Etta James
Caetano Veloso
Led Zeppelin
Jimi Hendrix
The Strokes
Richard Cheese
David Bowie
E muitas outras…

Semana que vem: Amsterdã!

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9 Comentários para: “Viajei nessa aula – Berlim”

  • bahh, muito bom!!! “Coceirinha” aumentou consideravalmente agora. Quero maiiiis! Semana que vem tô aqui de novo o/
    Beijo beijooo
    Ps.: Senti falta da foto do Camarão – e da receita. Bem que podias fazer para os hagahzetes né? #ficaadica ;)

  • Ah… fotos lindas, texto maravilhoso, relato emocionante! A Gigi AMOU as fotos do Pergamon. O difícil vai ser esperar mais uma semana pelo próximo capítulo!

  • Fiquei emocionada ao ler, muito bem escrito.. me senti vivenciando cada minuto junto ctg! demais! Parabéns ao Diego pelo espaço e a você por estar escrevendo e compartilhando com a gente momentos tão agradáveis!

    Um beijo grande.

  • ps: Aguardo ansiosa pela melhor parte da viagem… que venha Amsterdã! hahaha

  • [...] Post: Viajei nessa aula – Berlim Tags: amsterdã, berlim, europa, londres, mochilão, paris, trip, viagem [...]

  • Agora acho que todos tiveram um pouco da alegria que tive lendo e orientando seu TCC. Um texto lindo, emocionante e que nos coloca realmente lá. Foi o maior post da história do site (e talvez da internet). Mas cada segundo lendo é um prazer, uma milha na viagem, levando a gente com você nessa Eurotrip. Que venha Amsterdã.

  • Relato sincero, riquíssimo em detalhes e, o melhor, delicioso! Eu, que não conheço a cidade, tô me coçando para colocar Berlim no roteiro de férias o quanto antes. E me junto ao apelo dos outros internautas: que venha Amsterdã!

  • Já tenho uma MEGA vontade LOUCA de ir. Com essa tua experiência descrita, não vejo a hora!
    Adorei.

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