22.07.2010  |  Literatura, intervalo  |  4 Comentários

Ubaldo, o povo brasileiro e um brasileiro na Europa



Fiquei umas semanas fora do ar pelo nascimento da minha segunda filha e, agora, reiniciando as atividades, vejo que o novo “Perdi Essa Aula” tá pegando fogo. O foda é que o Ricardo Jahn, esse meu ex-aluno folgado que está na Europa e não vem tomar umas comigo em Madri, fica publicando seu formidável diário de viagem, o que na minha opinião é concorrência desleal e Don Diego deveria tomar uma atitude contra isso, pois quem vai querer ler meus humildes textos com dicas sobre literatura e publicidade se ao lado está a narração das desvairadas aventuras de um manezinho no Velho Mundo? Ora, ora, ora. É pura sacanagem. Deixo registrado o meu protesto.

Mas vou seguir mesmo assim, a quem interessar possa. E vou falar de um senhor ex-cachaceiro de primeira linha que é atualmente – e já há algumas décadas – um dos melhores escritores latino-americanos vivos: João Ubaldo Ribeiro. Acho que o nome é conhecido de todos, embora imagine que não muitos já o tenham lido. Minha experiência com o João Ubaldo não começou bem. Isso deve fazer uns quinze anos. Peguei emprestado do meu pai um livro de contos (Livro de histórias) que me pareceram até legaizinhos e bem escritos, um bom passatempo, mas nada além disso. O Ubaldo é um escritor que gosta de fazer graça. E em um conto, onde é difícil se aprofundar em qualquer tema, o que salta aos olhos em uma primeira leitura é justamente essa tentativa de ser engraçado. O que deve ter acontecido é que, geralmente, o que tem graça para um senhor de sessenta anos (deveria ser essa a idade do João Ubaldo nessa época) dificilmente tem graça para um moleque de vinte e poucos (a minha idade na época). Ou seja, achei legal, mas não vi muita graça em nada.

Mas, bem, o cara ia ficando cada vez mais e mais famoso, mais e mais comentado, e eu, com a pulga atrás da orelha, resolvi tentar de novo. Encarei O conselheiro come, O feitiço da Ilha do Pavão e Miséria e grandeza do amor de Benedita. A coisa ia melhorando. Até que, há um ano mais ou menos, peguei emprestado, mais uma vez do meu pai, o Viva o povo brasileiro, uma obra indiscutivelmente bela e original. Aí eu finalmente encontrei o Ubaldo.

O Ubaldo de Viva o povo brasileiro é um monstro. É um gênio da mescla ente conhecimento histórico e inventividade, entre emotividade e fina ironia, entre sensibilidade para recriar cotidianos e, ao mesmo tempo, para lançar sobre eles sua aguçada visão crítica. O Ubaldo de Viva o povo brasileiro é, também – e isso interessa diretamente a qualquer redator publicitário –, um mestre da língua portuguesa correta e criativa. Ele a domina e joga com ela como nunca havia visto. Como diz um trecho da orelha do livro, o Ubaldo de Viva o povo brasileiro é “senhor da carpintaria literária como poucos, de rara competência na utilização de um acervo de recursos narrativos aparentemente inesgotável, dono de uma sensibilidade apaixonada e ao mesmo tempo satírica”.

Viva o povo brasileiro é um grande livro e um livro grande, de 673 páginas (e não tenhamos medo dos livros grandes, desde que sejam grandes livros). É um épico, uma saga, mas não é pretensioso. É deliciosamente divertido, informativo e ainda por cima nos faz pensar em um montão de coisas interessantes sobre nosso próprio país, sobre sua formação e sua situação atual. Não é leitura obrigatória, pois em literatura isso de leitura obrigatória é uma bobagem e cada um lê o que lhe der na telha e o que melhor se encaixe aos seus gostos. Mas, leitores amigos, não ler o Viva o povo brasileiro é, isso sim, um desperdício, principalmente se você é um redator ou está em vias de tornar-se um.

A obra é de 1984 e tem muitas edições. A que eu surrupiei da biblioteca do meu pai foi a 11ª, da Editora Nova Fronteira. Imagino que o livro seja fácil de achar em livrarias, sebos ou internet, afinal ganhou os prêmios Jabuti de 1985 e Camões 2008, os maiores da língua portuguesa. Eu já o deixaria compradinho e guardadinho na estante de casa. Pode ser que você não o leia agora. Pode ser que você o leia nas próximas férias, ou daqui a cinco, dez ou vinte anos. Pode até ser que você não o leia nunca. Mas, se você chegou até aqui neste artigo, certamente vai ficar com esse nome guardado na cabeça: Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Era isso o que eu queria.

4 Comentários para: “Ubaldo, o povo brasileiro e um brasileiro na Europa”

  • Adoro tuas dicas de leitura! E com certeza, “não tenhamos medo dos livros grandes, desde que sejam grandes livros” diz TUDO! Parabéns pela filhota e deixo registrado aqui que aguardo o teu relato de brasileiro residente naZoropa – dicas, sujestões, impressões, decepções – sei lá, com teu talento dava um livro!

  • Calderaro.
    Que saudades! Primeiro, parabéns (de novo) pela filhota. Pelo jeito, como você, as meninas terão vários tesouros para roubar da estante do pai. Sobre a “concorrência”, dei muita risada. O Ricardo deve estar todo bobo.

  • “humildes textos” foi pra matar Calderaro. Não deixei a espanha de lado, apenas adiei. Ela está no topo da lista para próxima viagem e com certeza espero um tour de bares guiado pela sua pessoa. Lindo o texto como sempre, viva o João, viva o Calderaro! Obrigado pelos elogios, realmente me deixa bobo ler suas palavras! Ah, como você protestou, também vou protestar. Cadê o post sobre música do professor mais rock n roll que já tive? Abraço!!

  • Grande Caldera! Só agora tô me deliciando por aqui, com mais esta tua pérola (“humilde” realmente foi pacabánéô!)….aliás, tava mesmo precisando ler e a dica do Ubaldo cai como uma luva (já vi lá no Submarino – R$ 58,90, galera!).

    Sobre o Diário do Ricardo Jahn, concordo plenamente, já dei boas gargalhadas com a viagem do cidadão e tá servindo pro roteiro que devo fazer no final do ano. Caldera! O manezinho que vos escreve, se tudo der certo, deve pintar por aí. Te confirmo, mas já vai preparando aquelas mochilinhas, pra levar as duas pimpolhas, que conto contigo pra umas 2,3 ou 9 geladas. Abraçooo, e aguardem o Leão no G4!

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